A Peste

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"Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos."

"Mas o que são cem milhões de mortos? Quando se faz a guerra, mal se sabe já o que é um morto. E, visto que um homem morto só pesa se o vimos morto, cem milhões de cadáveres semeados através da História não passam de um fumo na imaginação."

"(...) sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento em primeiro lugar, e, em seguida, aquele que imaginávamos aos ausentes - filhos, esposas ou amantes."

(...) reintegráva-mos , em suma, na nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos ao nosso passado, e ainda que alguns de nós tivessem a tentação de viver no futuro, rapidamente renunciavam, tanto pelo menos quanto lhes era possível ao experimentarem as feridas que a imaginação finalmente inflige àqueles que nela confiam."

"(...) era então atirado sem transição para o mais espesso silêncio da terra. Não tivera tempo para o que quer que fosse."

"Com a ajuda da fadiga, ele deixara correr as coisas, tinha-se calado cada vez mais e não mantivera a sua jovem mulher na ideia de que era amada. Um homem que trabalha, a pobreza, o futuro lentamente fechado, o silêncio dos serões à volta da mesa - não há lugar para a paixão num tal universo."

"Mas esta porcaria desta doença! Até os que não a têm trazem-na no coração."

"Mas chega sempre uma hora na História em que aquele que ouse dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte."

"Agora sei que o Homem é capaz de grandes acções. Mas, se não for capaz de um grande sentimento, não me interessa. (...) é incapaz de sofrer ou de ser feliz durante muito tempo. Portanto, não é capaz de algo que valha a pena."

"A peste, é preciso dizê-lo, tirara a todos o poder do amor e até o da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e, para nós, já não havia senão instantes."

"Já não havia lugar no coração de todos senão para uma esperança muito velha e muito triste, a mesma que impede os homens de se deixarem ir para a morte e que não é mais que a simples obstinação de viver."

Excertos retirado da obra "A Peste" de Albert Camus

Talvez a obra cimeira de Camus, A Peste é um tratado alegórico à humanidade. Num mundo sem esperança e isolado, que é Orão, a cidade setiada pela peste; desenvolve-se a história de personagens tocantes que, procurando buscar algo mais que a sobrevivência, se tornam fascinantes dentro do enredo. A obra, de carácter vincadamente Existencialista e Absurdista, debruça-se sobre o existencialismo na sua forma colectiva, em contraponto com o Estrangeiro. A proximidade da morte, mais, a discricionariedade da mesma, são o ambiente perfeito para a narrativa filosoficamente empenhada no sentido da vida. Com vários episódios tocantes, descreve-se como a brutalidade de uma sociedade flagelada e desesperançada rouba o sentido terno da vida. Deste modo, o livro acaba por ser, como a contracapa o diz, uma "trágica alegoria de um tempo consagrado à inumanidade. O Nosso.". A narrativa pareceu-me algo previsível, o que em nada definha a obra, até porque o fim é realmente comovente. Descreveria este romance como uma obra devota ao Bem, à Verdade e ao Homem. Obrigatória.

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