
Da suposta Evolução

Porquê Filosofia: negar e desconstruir
É nestes últimos e longos tempos que a errónea, e até estulta pergunta, alimenta não os espíritos dos homens, mas uma suposta coerência baseada na simples sobrevivência animal do Homem. Para quê a Filosofia? Filosofemos então um pouco sobre a matéria, partindo de uma fonte transparente como é a epistemologia. Filosofia, amor ao saber, tem por isto e sucintamente por isto ademais de outros motivos, a Verdade como génese. Daí, é a única matéria que é sempre verdade. Se não vejamos; o que nos interessa o saber falso? A resposta é inequívoca se a abordarmos com seriedade. Em rigor e coerência para connosco mesmos, só o saber verdadeiro nos interessa. Por silogismo, se só a verdade interessa, e estamos perante um saber falso, esse saber não interessa. Ora, é pela imediata oposição que a Filosofia me parece, desde que o meu entendimento me permite raciocinar e o meu conhecimento pensar, a única matéria sempre verdadeira. Saber a verdade. Daí a necessidade verdadeiramente humana de filosofar.
Não desprezando que nullus locus sine Genio, em Ciência, nunca saímos da linguagem e da matéria científica, mesmo que falsa, se à luz do conhecimento actual esse saber falso preenche todos os requisitos científicos de uma época. Na Matemática por exemplo, podemos fazer álgebra ou análise sobre o falso, desde que o cálculo não esteja errado, e isso depende das técnicas de cálculo contemporâneas. Na Política, podemos discorrer sobre o falso, desde que a premissa – ideologia, entendimento empírico, preconceito, etc – não sejam violados que ainda assim, estamos a fazer politica correctamente. No Direito, é por demais evidente que ainda que dotados da mais plena boa-fé e crença num qualquer sistema jurídico, a verdade não está presente se uma qualquer lei desse sistema não fraternizar com a verdade. Mais, qualquer que seja o intuito justo do Direito, ele esbarra numa acepção de Justiça que em nada garante ser a Verdade. Na Economia, os modelos estão assentes em suposições que julgamos válidas por adequação e facilidade, mas Economia como cuidar da casa, verdadeira origem do termo grego, é uma ferramenta de prosperidade cuja verificação empírica na evolução das sociedades se observa ser ziguezagueante. Nas artes, a discussão do belo e do estético não tem fim, que é como quem diz, o artista é o prosélito de uma vanguarda ou tendência que julga com fervor ser a verdade, sem mais. Na Teologia, seja ela de qualquer jaez, a sua aplicação recai sobre Igrejas, sistemas filosóficos que têm no dogma a sua fundação e desse modo, a sua anti-filosofia. Em contraponto, só se filosofa sobre a verdade pois o genius loci da Filosofia é a Verdade. Não porque este acto seja provido de qualquer deferimento divino, mas porque, ex vi termini, tudo o que é falso ao entendimento filosófico está fora do entendimento filosófico. E isto é um conceito muito estrito, pois se tivermos em conta as ferramentas da Filosofia, como a Lógica, nesta há claramente e de novo, espaço para o falso. Tal como na Matemática, não caminhamos fora da Lógica ainda que no erro, desde que não violemos os preceitos lógicos. Não havendo sofisma, o falso é lógico.
Termino esta elucubração esclarecendo que tudo isto só pode ser suportado pela consideração de que a verdade não é una. Difere de alma para alma, e por isso, Tales de Mileto, Kant ou um qualquer contemporâneo nosso, ao filosofar, chegam à verdade, à sua, individual e intransmissível, porque pensar é ser Homem e ser Homem é a Verdade do Homem; pelo menos ao que julgo. Qualquer sistema filosófico é uma explanação que chega à verdade daquele que a pensou. Todos os outros podem ficar insatisfeitos, ainda que na generalidade se reconheçam e perfilhem do entendimento provido pelo sistema criado, mas não há dúvida que o sistema responde a uma necessidade individual de saber de quem ergueu o sistema. Deste modo, mesmo que aquilo que saibamos agora seja mais vasto e até contrário àquilo que se sabia na Atenas de Péricles, a verdade é individual mas o conceito tem a eternidade passada e futura da humanidade estendida em toda a sua cronologia.
Por tudo isto, a pergunta iniciática desta reflexão consiste, a meu ver, no evitar do verdade, no deixar de procurar, e longa manus dessa postura, na negação e desconstrução do Homem.
Thoreau e o Imobilismo Europeu
Do mesmo modo, a estrutura das administrações, sobretudo as públicas e que se fazem sobre o bureau, ainda vai assentando nestas ideias mais clássicas, das quais os europeus não querem abdicar. Por isso, os Estados estão cravejados de funcionários e são grandes. As máquinas administrativas europeias são filhas de pequeninas máquinas administrativas que se foram “desenvolvendo”, netos da voyeur administração soviética, ou descendentes afastados de uma egrégia administração pública cavernosa e total. Os países que rectificam o Tratado de Lisboa vêm destas realidades administrativas, e têm em comum a base estatal como comprometimento social. O empreendimento social do Velho Continente assim o pareceu exigir.
De Mau Gosto
Nos discursos que precedem as campanhas eleitorais que se avizinham, a classe política, tem nos últimos meses associado as inevitáveis promessas eleitorais , com os discursos sobre a questão ética na política. Aproveitando-se, de forma pouco ética, da cada vez maior projecção dos casos que levam os cidadãos a afastar-se da política, os políticos prometem ética como o próximo chavão eleitoral.
Ora como cidadãos, cabe-nos avaliar o que este fenómeno quer dizer. Antes de mais, a ética é discutível, mas a sua presença na gestão da res publica não deveria ser objecto de debate, deveria ser um dado adquirido. Em segundo lugar, aclara-se perante nós que a ética só é argumento de campanha porque a mesma classe política têm agido até aos nossos dias sem ética. Por fim, prometer ética só será ético per si se for uma promessa cumprida, e daqui tirem as vossas conclusões.
Neste triste círculo vicioso, atrever-me-ia a dizer que os representantes da República em Portugal, colando as questões da honra à Monarquia anteriormente deposta, perverteram a ética ao nível burlesco. Não que este problema seja próprio de um regime, a História de Portugal é que tem destas coincidências. As convulsões insanas da Primeira República, o carácter persecutório e discricionário do Estado Novo, e o estado actual de coisas que levou ao jargão “traição das promessas de Abril”. Assim sendo, vivemos sem ética à pelo menos um século, tanto tempo que habitua. Eu por exemplo, acho de mau gosto a classe política falar de ética. Era relíquia, e como se quer nas relíquias, só são boas para quem as aprecia. Por favor, não a tirem do museu; é que antes num museu onde os justos a possam visitar, do que aí aos pontapés nas arruadas.
Considerações sobre arte: O contributo de Gógol
O prometido é devido; assim sendo lancemo-nos na dissecação da Arte tal como Nikolai Gógol a meditou: conceito, percurso e ameaças.
Conceito de Arte
Para ser Arte não basta ser qualquer objecto que nos desperte curiosidade. Segundo Gógol, a Arte necessita do engenho do artista e acima de tudo necessita do artista. Da alma do artista! Para Gógol o artista tem de estudar artes para explanar no belo os sentimentos e impressões íntimas, os seus conceitos pessoais, o calor humano das sensações. Quando Gógol pensou na Arte, no seu espaço e suas expressões e qualidades indissociáveis, pensou que um quadro inacabado feito com total entrega do artista é mais arte que a mais bela das paisagens friamente retratadas.
Percurso do artista, alcançar a Arte
No entender de Gógol o artista alcança a plenitude quando a sua concentração na obra tornou o seu mundo hermeticamente fechado. Ser artista não é um trabalho das nove às cinco, é viver no mundo da Arte. Para além do enfoque dado à concentração, Gógol não despreza o conceito de talento, bem pelo contrário, tem-no como o aspecto “mágico” que distingue. Gógol diz mesmo que sem talento a arte torna-se o “artesanato da arte”.
Ameaças à Arte
De facto, para além do seu mundo místico e do seu estupendo talento literário, Gógol, pese o facto do seu obscurantismo religioso, era um escritor com grande visão. Por isso, em “O Retrato” estabelece todo um conjunto de perigos que rodeiam o artista, ameaçando assim a Arte. Todos eles são de incrível actualidade, e alguns bem mais patentes nos nossos dias do que no São Petersburgo do séc. XIX. Destaco o perigo da social, o perigo do crescimento e o perigo económico. O perigo social consiste na pressão de que o artista é vítima. Assim, a moda e a ignorância artística do público pressiona a que a Arte se estandardize, ou por outra, se desconstrua enquanto expressão do artista. A pressão popular leva ainda à produção em série de obras, algo contraditório ao que definimos como conceito de Arte. O perigo económico está também muito ligado ao social. A situação económica influi nos estados de alma do artista. Um estado de pobreza levará a produzir o que outros querem em detrimento de si próprio. Os estados de riqueza são um incentivo ao ócio e à perda de virtude, implicando uma fuga ao mundo hermeticamente fechado da Arte. No caso descrito em “O Retrato” o artista pobre torna-se miraculosamente rico e procurando alcançar cada vez mais riqueza distancia-se da Arte e cola-se às modas da alta sociedade. Por fim o perigo do crescimento está associado ao amor pelas riquezas, à perda de espontaneidade, ao conformismo, ao egoísmo e ao endurecimento do coração. Em Gógol esta ideia está sublimemente expressa e identifica o quão difícil é ser artista sem reservas ao longo de uma vida inteira.
Onde está o voto deles? - Filosofia
(Cont do texto: Onde está o voto deles? - Política )
A fabulosa estória de Gesualdo da Venosa...
Este texto vai para o Tomo II - Filosofia, não pela estória que nos é contada, mas pela dissecação da bipolaridade estética-ética na obra de arte; algo que apreciei muito numas leituras que fiz de Gogol, das quais, oportunamente discorrerei dos esquissos.
Agora a sério, ter dó é...
Ainda Voltaire
A Lei Natural em contraponto com a Lei Positiva.
Sendo a Lei Natural mais própria ao instinto, carecerá o Homem de Lei Positiva? Carece na circunstância de que é um ser social. Social no seu complexo de razão e sentido, mais do que no âmbito da sobrevivência. É que porquanto que o Homem solitário sobreviveria no limiar, ainda assim perderia a humanidade que há em si, por esta ser própria do contacto. Aqui entra a Lei Positiva, forma de o Homem se auto-regular, de acordo com as suas necessidades sociais. A Lei Positiva parece-me em última análise, a resposta adequada para o Homem se assumir na sua forma social, e como tal, na sua forma superior. A Lei Positiva acaba por impedir segundo o meu entendimento de Voltaire, a negação do primado da Lei Natural que consagraria a Desordem Natural.
A Corte de Versalhes e o Clero Vs O Estado e os Lóbis.
Parece-me uma comparação eminente. Na verdade, a forma de corte descrita por Voltaire assemelha-se à situação actual naquilo de que imutável é feito o poder: o espírito dos Homens que o ocupam. Por isso, a vilania dos políticos será sempre a abjecção do Estado, a ode da guerra e da fome e o triunfo da injustiça. Em contraponto, o bem no bom posto (porque o cargo político é intrinsecamente bom por aquilo que pode fazer pelos terceiros) será a reprodução de Paidéia da Grécia Antiga e a formação de Guardiões como preconiza Platão em A Republica, a mais magistral lição não de política mas de formação política que até hoje li.
O Constrangimento Social no processo intelectual.
É inegável que aprendemos para saber, bem como é irrefutável que o saber é vantajoso perante a ignorância. Uma questão que sendo paralela passa frequentemente à margem destas evidências é que o saber como fonte de Verdade, é perturbado por constantes constrangimentos de ordem social, que na sua ausência levariam a um mais evidente escrutínio da Verdade. Note-se que o Ingénuo que Voltaire monta, é não mais que um inculto, que posto em contacto com o mundo livresco, facilmente ultrapassa os cultos franceses. Este salto qualitativo dá-se pela ausência de preconceitos, modas, tendências, gostos ou estereótipos na educação infantil, e consequentemente na área ininteligível da mente. O Ingénuo era um ser aberto à Verdade porque foi privado do constrangimento social.