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Fumo

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"E era por isso que Litvínov estava tão sereno e simples, olhava à volta tão confiante. Porque a sua vida estava tão claramente disposta à sua frente, porque o seu destino estava determinado e porque estava orgulhoso desse destino e satisfeito como se está satisfeito de um trabalho feito pelas nossas próprias mãos."

"... durante dez séculos a Rússia não produziu nada, nem em governo, nem em leis, nem em ciência, nem em arte, nem mesmo em artesanato... Mas espere, tenha paciência: tudo virá. E porque virá, posso perguntar? Porque nós, pessoas educadas - não prestamos para nada, mas o povo... oh, é um grande povo! Vê aquele camponês? Dali é que há-de vir tudo."

"Dêem-nos um desenvolvimento normal! Mas aonde é que o vamos buscar, quando a própria primeira acção histórica do nosso povo - chamar príncipes do outro lado do mar para o governar - já é irregular, anormal e repetida em cada um de nós até hoje?"

"... aqueles dias em que, ainda querendo duvidar e tendo medo de acreditar, com um êxtase palpitante, um pouco receoso, via como surgia aquele amor, grande e dominando irresistivelmente tudo à sua frente, produzindo por fim uma inesperada felicidade."

"Na verdade ele não estava nada a pensar assim e apenas repetia maquinalmente aquelas frases batidas,, como se quisesse ver-se livre de outros pensamentos mais angustiantes."

"Começou a censurar-se impiedosamente mas logo se dominou. «Isto é fraqueza», pensou. «Agora não é o momento para censuras Tánia é a minha noiva, confiou no meu amor, na minha honra, estamos ligados para sempre e não podemos, não devemos separarmo-nos». Imaginou vivamente todas as qualidade de Tatiana, pensou nelas, contou-as; tentou despertar em si o amor e a ternura."

"«Sim Tánia, estou perdido. Todo o meu passado, tudo o que me é caro, tudo o que vivi até agora - está perdido para mim, tudo está destruído, arruinado, e não sei o que me espera amanhã. Acabas de me dizer que deixei de amar-te... Não, Tánia, eu não deixei de amar-te, mas foi outro sentimento terrível, irresistível, que caiu sobre mim torrencialmente. Lutei enquanto pude.»"

"«Fumo, fumo», repetiu ele algumas vezes: e, de súbito, pareceu-lhe que tudo era fumo, tudo, a sua própria vida, a vida russa - tudo o que era dos homens, e especialmente tudo o que era russo. «Tudo fumo e vapor», pensou «tudo parece mudar continuamente, em toda a parte novas formas, acontecimentos, mas no fundo é tudo o mesmo; tudo corre tudo se apressa para qualquer parte - e tudo desaparece sem um rasto, nada atingindo; o vento muda - e tudo se lança na direcção oposta, e de novo começa o mesmo jogo incessante, ansioso e fútil.»"

"O velhote ficou contente por ver o filho, na medida em que se podia alegrar um homem já com a vida acabada."

Excertos do romance Fumo, de Ivan Turguénev


O típico romance de Turguénev é um excelente compêndio da vida aristocrática de São Petersburgo e da Rússia da segunda metade do século XIX, onde já pontificam aquilo que seriam as futuras tendências comunistas e populares Russas do século XX. Ademais, o livro retrata ad nauseam a obsessão francesa da nobreza e a sua futilidade ociosa, que transtorna o homem questionador. Mas este é sem dúvida um romance de cânone. A diagnose política e social serve-nos apenas de brilhante pano de fundo a uma história de amor febril e dramática - típica da literatura Russa - que se estabelece a partir do reencontro de dois antigos enamorados. O mote é precisamente esse: o desarranjo emocional e psicológico provocado pelo encontro, que surge na figura de Litvínov como um regresso inconveniente ao passado. Um homem que redesenha a sua vida e que se confronta com o desejo reacendido do passado. Num triângulo amoroso entre o passado e o presente, o final acaba aberto e morno - uma sensação sublime de banalidade, talvez - oferecendo uma vivacidade ainda mais real a um romance já de si robusto. Fez-me lembrar subtilmente a Insustentável Leveza do Ser, e é o melhor romance que li sobre amores do passado.

O Terceiro Reich

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"Quando da varanda observei que a grande massa dos banhistas empreendia a retirada para os hotéis e para os parques de campismo, desci à praia. Aquela hora é triste e os banhistas são tristes: cansados, fartos de sol, viram o olhar para a linha de edifícios como soldados antecipadamente convencidos a sucumbir; os seus passos cansados que atravessam a praia e o Passeio Marítimo, prudentes, mas com um toque de desprezo, de fanfarronice diante de um perigo remoto, a sua peculiar maneira de se meterem pelas ruas laterais onde procuram imediatamente a sombra, conduzem-nos directamente - são uma homenagem - ao vazio."

"Na sua voz noto rancor e tristeza; a minha explicação, conciliadora, só lhe causa desprezo."

"- Quando morreres, Udo, serás capaz de dizer «volto ao sítio de onde venho: o Nada».
- Quando uma pessoa está a morrer é capaz de dizer qualquer coisa - respondi."

"- E que é ser um alemão?
- Não sei exactamente. É, à partida, algo difícil. Algo que temos esquecido paulatinamente."

"O que é que eles têm a ver com este hotel que cai aos bocados? Nada, mas ajudam: confortam. Prolongam o adeus até à eternidade e fazem com que recorde velhas partidas, tardes, noites, das quais só resta não o triunfo nem o fracasso, mas um movimento, uma finta, um choque, e as palmadas dos amigos nas costas."

"E o que é que aconteceu?, perguntei eu, surpreendido. Nada. Beijou-te? Tentou, mas dei-lhe uma bofetada. Ingeborg e eu rimo-nos muito, mas depois a mim fez-me pena."

Excertos de O Terceiro Reich de Roberto Bolaño

Uma personagem principal confundida, desinteressada, introspectiva e amoral, envolta numa linha narrativa - que se constitui sob a forma de diário - absurda, sarapintada por personagens enigmáticas. Eis O Terceiro Reich de Bolaño; um livro vincadamente da escola absurdista ou surrealista, com um vocabulário simples, onde o principal foco de interesse se circunscreve ao narrador e ao seu jeito errático, passando levianamente sobre os acontecimentos, demasiado aborrecido para especular sobre quaisquer consequências. Infelizmente, a história acaba por ser, também por isso, um pouco pobre e repetitiva, e salvo raras excepções, nunca alimenta um acontecimento que nos prenda a mais de dez ou vinte páginas. Enfim, uma obra com uma mensagem estética e literária - iconoclasta face a Garcia Marquez - muito definida mas que, sem o enredo e o detalhe psicológicos que se exigem deste estilo, fica muito aquém de Camus, Sartre, Nietzsche ou Dostoievski, grandes escritores/pensadores neste registo.

O Vermelho e o Negro

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"Sentia-se demasiado feliz para ver perigo fosse no que fosse. Ingénua e inocente, nunca esta excelente provinciana torturara a sua alma para tentar extrair dela um pouco de sensibilidade para qualquer nova forma de ventura ou infelicidade."

"Desta vez, a sensata Madame Derville achou a prima muito menos alegre, mas muito mais feliz."

"É este, infelizmente, o mal de uma civilização excessiva! Aos vinte anos, a alma de um jovem com alguma educação encontra-se a mil léguas daquela felicidade sem a qual o amor não passa, na maior parte das vezes, de um penoso dever."

"Julien sentiu que o menor raciocínio a irritava, em vez de a acalmar. Ela via na linguagem da razão como que a linguagem do inferno."

"Tinham então entusiasmos de verdadeira loucura. Aos olhos dos outros, essa felicidade teria parecido maior. Mas já não tinham a serenidade deliciosa, a felicidade sem nuvens, a fácil ventura das primeiras épocas dos seus amores quando o único receio de Madame Rênal era o de não ser suficiente amada por Julien."

"Entre os fidalgotes de Verriéres e das vizinhanças inscritos no registo dos irmãos contribuintes, segundo o montante das suas ofertas, por mais de uma vez o nome de Monsieur de Rênal ocupara a última linha. Em vão, ele alegava não ganhar nada. O clero não brinca com assuntos desta natureza."

"A orientação habitual do século XIX é esta: quando um homem poderoso e nobre se depara com um homem corajoso, mata-o, exila-o, prende-o ou humilha-o de tal maneira que o outro comete o disparate de morrer de sofrimento."

"(...) Prevejo que vais ter uma carreira difícil; noto em ti qualquer coisa que ofende a vulgaridade. A inveja e a calúnia perseguir-te-ão sempre."

"Na província, se nos acontecer um acidente ao entrarmos no café, o simples criado que lá trabalha interessa-se por nós; mas se esse acidente nos causar algum melindre ao amor-próprio, é capaz de repetir dez vezes, ao mesmo tempo que nos lamenta, a palavra que nos faz sofrer. Em Paris, têm a delicadeza de ocultar o rosto para se rirem de nós, mas seremos sempre uns estranhos para eles."

"«Já não ridículo - dizia monsieur de La Mole - num país onde existem dois partidos.»"

"O amor imaginado tem sem dúvida mais espírito do que o verdadeiro amor, mas só por momentos atinge o entusiasmo; tem demasiada consciência de si e está sempre a julgar-se; em vez de perturbar o pensamento, constrói-se de pensamentos."

"Quando o ser humano cai no último abismo da desventura, tem como derradeiro recurso a coragem."

"Sofria muito mais profundamente durante a minha primeira viagem a Estrasburgo, quando me julgava desdenhado por Mathilde... E poder dizer que desejei com tanta paixão esta intimidade perfeita que hoje me deixa tão frio!... De facto, sinto-me muito mais feliz sozinho do que quando essa bela mulher partilha a minha solidão...»"

"«Não, o homem não pode confiar no homem.»"

Excertos da obra O Vermelho e o Negro de Stendhal

Obra fabulosa no capítulo psicológico sobre um jovem seminarista e preceptor; de hipocrisia torpe, filaucioso e astuto, cuja inteligência e conflito interior nos é tão admirável que é impossível não nutrir simpatia por ele. No fundo, é disto que o romance sobre Julien Sorel nos trata. Um Romance enquadrado historicamente na ressaca Francesa de Napoleão, algures nos anos de luta entre os Liberais e os Ultras em França, onde a consciência social é vincada, tanto no carácter e atitudes das personagens - em especial em Sorel, no Maire e em Mathilde -, como na descrição dos espaços e acontecimentos.

Com uma escrita muito rica e densa, o livro tem um magnetismo raro em comparação com outras obras da apelidada "Literatura Pesada". Se por um lado temos descrições sublimes sobre os sentimentos das personagens, e até sobre as especulações e conjunturas que fazem entre si, por outro temos uma história rectilínea e imprevisível, sem precisar do cinematográfico
suspense, tão em voga nos dias de hoje.

Este
Roman à thése toca em todos os pontos que um Romance secular deve tocar. Amor, erotismo, sociedade e política estão lá; e até a consciência artística, um pouco escondida (por vezes fica a impressão que Stendhal não queria especificar) comparece de forma competente, numa obra onde são pontificadas as vantagens da província face à capital. Uma obra cimeira dos triângulos amorosos, com a carga psicológica de um Dostoiévski, nas mãos de um narrador irrepreensível como é Stendhal.

A Fábula

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"...fora permitido ao filho alistar-se no dia seguinte, e em Agosto foi enviado para a Bélgica e passadas três semanas já fora dado como desaparecido em Mons, e isso foi aceite por todos excepto pelo pai, que pediu à firma de advogados uma licença sem vencimento para sair e se alistar, e estes concederam-na por que pensaram que ele nunca conseguiria ser aprovado nos exames médicos. Oito meses depois, também o pai estava em França. Um ano depois ainda estava a tentar, primeiro conseguir uma licença para se ausentar; depois, quando isso falhara, a tentar a transferência para alguma unidade suficientemente próxima de Mons para procurar o filho, embora já se tivesse passado muito tempo desde que se referira a ele, como se tivesse esquecido o motivo por que estava ali e se lembrasse apenas do destino..."

"A guerra é um episódio, uma crise, uma febre cujo objectivo é livrar o corpo dessa mesma febre. Assim o objectivo da guerra é acabar com a guerra. Sabemos disso há seis mil anos. O problema é que demorámos seis mil anos a aprender a fazê-lo."

"Porque eles não acreditavam que a guerra estivesse terminada. Decorria há demasiado tempo para cessar, para acabar, de uma noite para a outra, com um mero aviso, e daquela maneira. A guerra limitara-se a prender-se em si mesma; não os homens envolvidos nela, mas a guerra em si, guerra, insensível e até desatenta à angústia, à carne rasgada, a toda a mesquinha vaga e revoada de vitórias e derrotas como o enxamear e rodopiar de insectos..."

"...três mil homens que tinham salvo a França e o mundo iriam perder as suas vidas, não no próprio acto, mas apenas depois do facto, de modo que, para homens que tinham salvo o mundo, o mundo que tinham salvo não merecia o preço que tinham pago por ele..."

Excertos da obra A Fábula de William Faulkner

A aclamada obra de Faulkner, vencedora do Pulitzer e do National Book Award, chegou-me às mãos numa edição relativamente recente da Casa das Letras, que me convenceu, muito por culpa da chancela de Nobel que o autor carrega. Nestas coisas da leitura, vou tendo os meus princípios. Um deles é desconfiar da literatura Norte-Americana. Para o caso, não fez mal; arrisquei. Foi talvez por escolher um obra multi-premiada que tenha arriscado, mesmo sem nunca ter lido Faulkner anteriormente.

A primeira impressão foi desafiante. Uma leitura densa, em jeito de romance histórico, um tanto desligado e de parágrafos prolixos. Nada que assustasse a minha tolerância; que é coisa de 50 a 70 páginas, mas na verdade, o livro nunca mudou. Foram 330 páginas de boas passagens, desusadamente introspectivas para um escritor não Europeu - e este é um ponto que saúdo -, sem que a história me parecesse cabalmente una, nem tão pouco premeditada. Ou seja, se por um lado é bom haver um livro bem escrito sobre a Primeira Guerra Mundial, tão esquecida em função da Segunda, por outro lado é uma pena a lógica narrativa tão intrincada, de onde dificilmente se apanha o fio condutor.

Confesso que o fim não me deu qualquer prazer, antes alívio, mas certamente estarei em desacordo com quase todos os que lerem a obra, e por isso, em consciência, aqui fica a sinopse do editor.

Súplicas Atendidas

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"A verdade é que raramente estou com a pessoa com que estou, por assim dizer; e tenho a certeza de que muitos de nós, até a maior parte, partilham esta dependência de um cenário interior, fragmentos eróticos imaginados e lembrados, sombras irrelevantes do corpo por cima ou por baixo de nós - o nosso espírito aceita estas imagens aquando do orgasmo sexual, mas exclui-as logo que a nossa animalidade foi saciada, porque, independentemente do nosso grau de tolerância, esses fantasmas são insaciáveis aos olhos maldosos dos espias que nos habitam."

"Como é que eu posso, quando uma senhora destas não me deixa concentrar em matérias mais excitantes do que os seus grunhidos?"

"Tenho um amigo que não aprecia as mulheres apesar de não ser homossexual. Costuma dizer-me: As únicas mulheres com quem me amanho são a Sr.ª Punho e as suas cinco filhas - é asseada, nunca faz cenas, é de borla, fiel e está sempre à mão."

"Pode-se argumentar que mesmo as pessoas mais decentemente acasaladas foram, de início, atraídas pelo príncipio da exploração mútua - sexo, protecção, ego saciado..."

"«E agora», disse num tom surpreendentemente casual, «diga-me o que espera da vida»."

"Claro que os homens têm momentos adultos de vez em quando, dos quais a morte é o mais importante. A morte põe certamente o miúdo traquinas em fuga e deixa o que resta de nós inerte, sem vida, mas puro como a Rosa Branca."

"(...) tudo seria meu no dia em que Milhões com Insónias fosse publicado.
Excepto que nunca foi."

"Tânger é uma peça branca de escultura cubista na encosta em frente da baía de Gibraltar. Desce-se do cimo da montanha, através de um subúrbio para a classe média salpicado de feias vivendas mediterrânicas, para a cidade «moderna»..."

"Deu-se então conta de que possuía centenas de compinchas, mas nenhuns amigos, daqueles a quem se pode telefonar às três da matina."


Excertos de Súplicas Atendidas de Truman Capote


A dissimulada biografia inacabada de Capote é um livro desassombrado sobre uma vida boémia e, em todas as direcções, exagerada. A linguagem clara e directa dá à narrativa um divertimento suplementar e, apesar de em nada se assemelhar ao "romance de cordel", prende a atenção do leitor. Para quê? Para nada. Peripécias avulsas num livro brutalmente interrompido pela morte do seu escritor. É-me aliás estranho conceber a edição de um livro que, em momento algum faz menção de acabar, um pouco como um Homem Sem Qualidades de Musil, com a diferença que aqui se nota claramente que o projecto está interrompido, enquanto que na obra de Musil, o projecto é mesmo infinito. Voltando a história, pode-se esperar o conto desconcertante da vida de um escritor errático, de índole travessa, que deliciosamente se cruza com personagens reais como Sartre, Camus ou a Duquesa de Windsor. Enfim, linhas que divertem muito, o que já de si é uma grande vitória contra a dita literatura "mais pesada".

Uns poemas na televisão

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Saúdo o conceito e a forma como ele aparece aqui vendido na televisão privada. À especial atenção dos interessados o último poema.

A Estrada Real

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"- Quem se mata corre atrás duma imagem que se formou de si próprio; ninguém se mata senão para existir."

"Desconcertado por sofrer, não só pela morte daqueles que amava, mas ainda pela de uma mulher que não amava, suportou a sua morte, quando ela chegou, com uma resignação desanimada."

"-Nunca se faz nada da vida.
- Mas ela faz qualquer coisa de nós.
-Nem sempre... Que espera da sua?
(...)
-Creio que sei sobretudo o que nã espero dela...
-Cada vez que teve de optar...
-Não sou eu quem opta: é o que resiste."

"Porque é que trabalhavam? Para ganharem consideração. (...) A submissão à ordem do homem sem filhos e sem deus é a mais profunda das submissões à morte..."

"Não sabe o que é o destino limitado, irrefutável, que cai sobre um homem como o julgamento sobre o prisioneiro: a certeza de que se será isso e não outra coisa, que se terá sido isso e não outra coisa, que o que não se teve, nunca se terá."

"É quando entra em declínio que uma pessoa se deve matar, mas é precisamente quando se entra em declínio que se volta a gostar da vida..."

"Você sabe tão bem como eu que a vida não faz o menor sentido: não é por se viver só que se escapa à preocupação do seu destino..."

"-Não é para morrer que penso na minha morte, é para viver."

"Agora, não há nada pior que aquilo que era a esperança.

"Sentiu furiosamente o desejo de disparar sobre ele, como se só o assassínio lhe tivesse permitido afirmas a sua existência."

Excertos da obra "A Estrada Real" de André Marlaux

Livro de aventuras inspirado nas florestas do Sião e no espírito tribal das gentes da área de Angkor-Wat, Malraux usa dos seus conhecimentos da área - onde de facto viveu -, para exarar este livro de pendor profundamente humanista. Esta obra, escrita três anos antes de A Condição Humana, é talvez o prelúdio do seu conteúdo. Com uma história linear, ainda que confusa no estilo, a narrativa vale sobretudo pela descrição agreste da floresta e dos ambientes húmidos das floresta do Sião, nas regiões hoje de Laos e Cambodja. Também nas personagens não se estabelece uma grande teia, vivendo-se invariavelmente na dupla que move a acção. Por isso, acaba por ser o conteúdo humanista que sobressai, particularmente na construção de diálogos quase impossíveis fora do mundo literário. Uma imprecisão realística que muito valoriza o livro, pois este, na minha opinião, apenas impressiona pelo exegese filosófica que faz da morte e da vida (parece-me ser esta ordem naturalmente invertida a correcta neste caso). A Estrada Real é um livro sobre a morte, a fraqueza da condição humana, e a força de, na vida absurda, haver uma morte pacificada.

Literatura low-cost em tempos de FMI

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À atenção dos interessados. Bons livros, de autores mais ou menos controversos, ao preço acessível, próprio das colecções. Por vir atrasado, escapou-me o primeiro volume, mas ainda o vou tentar resgatar. Ter A Mãe, O Castelo ou Três Mulheres por 5,95€ só pode ser bom negócio.

Património

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"Louie Chesler está num hospital, a urinar sangue. Ida Singer não vê quase nada. Milton Singer não pode andar e está numa cadeira de rodas. Turro - lembras-te do Dick Turro? - tem cancro, coitado.(...) Conseguia, assim, não pensar inteiramente no seu tumor."

"A morte de um progenitor é horrível. Quando a minha mãe morreu, eu não fazia ideia de que me ia sentir como me senti. Metade, ou mais, da vida desaparece."

"- Era um merdas e um falhado e queria que eu também fosse um falhado. A miséria adora companhia."

Excertos de Património de Philip Roth

Um não-romance, obra biográfica romanceada; este é o tributo de Roth ao seu próprio pai. Confesso que poderei ter escolhido mal. Isto não é o protótipo de livro com que se dê o tiro de partida para qualquer escritor. Ainda assim, o livro segue o aspectos gerais que vejo em Auster ou até mesmo em Truman Capote. Resumindo, a literatura americana não me entusiasma por aí além. Injusto? Talvez, e Roth é um eterno candidato ao Nobel, mas as linhas soam sempre mais ao menos ao mesmo. A uma escrita escorreita mas demasiado despreocupada, onde o escritor entra em nós não como um ente genial ou um amigo de longa data a precisar de desabafar, mas num meio termo que me é incomodativo. De resto, é um livro sobre a morte anunciada de um pai e tudo o que isso acarreta. Melhor, é sobre o que isso provoca em nós. É sobre a morte sempre prematura, mesmo aos 86 anos; sobre a eterna compreensão depois de anos de mágoas geracionais; sobre a decadência que colhe a sabedoria; sobre a genética dos sentimentos genéticos. Nisso, este livro é bom.

Desespero

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"Mas a verdade é que a amava por ela me amar."

"Por exemplo, era capaz de estar na cama com Lydia, desafiando as breves séries de carícias preparatórias a que teoricamente ela tinha direito, e de repente ter consciência de que o diabo da Cisão se tinha imposto."

"E o resto foi tudo inventado, a religião, a poesia... oh donzela, como sofro, oh, o meu pobre coração! Não acredito no amor. Já a amizade, isso é outra história. A amizade e a música."

"...um mundo em que o trabalhador que cai morto aos pés da sua máquina será imediatamente substituído pelo seu perfeito duplo sorrindo com o sorriso sereno do perfeito socialismo."

"Qual autor relendo a sua obra mil vezes, verificando e testando cada sílaba e no fim incapaz de dizer de aquele mosaico de palavras se é bom ou não, assim aconteceu comigo, assim aconteceu."

Expressões retiradas de Desespero de Vladimir Nabokov

Auto-desafio, entretém intelectual, auto-elogio, farpa inimiga aos clássicos (Dostoiévski sobretudo) e aos comunistas, desabafo. Um pouco de tudo isto vindo de uma história onde Nabokov parece apenas querer impressionar o leitor. Escarrapachar em cada linha o seu talento estudado. Pouco depois de começar, já nos contava que poucos escreveriam como ele, até porque ele tinha lido mil e dezoito livros entre 1914 e 1919. A história trata de um homem - um Nabokov fugido da realidade factual - que num delírio se convence de ter encontrado o seu duplo perfeito. Depois, a personagem, envolta numa êxtase narcisista e desassombrado, resolve assassinar o seu duplo e forjar a sua morte, talvez não tanto pelo prémio do seguro de vida - que serve de móbil assumido ao crime -, mas antes por exercício de superioridade intelectual. A procura do crime perfeito, ou talvez do super-homem de Nietzsche. Uma história que mistura a crítica à URSS e à cultura Russa com um romance introspectivo e intrincado; sempre salpicado de profundo talento e capacidade de subversão escrita e imaginária.

As perturbações do pupilo Törless

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"... ajudam os jovens a caminhar sobre o terreno anímico, perigosamenete amolecido, destes anos em que temos de acreditar em nós, mas que estamos ainda demasiado imaturos para sermos de facto alguém com importância."

"Era a hora em que as pessoas se vestiam para algum encontro, ou resolviam ir ao teatro. E aseguir vai-se a um restaurante, ouve-se uma banda, fica-se um pouco num café. Conhece-se gente interessante. Uma aventura amorosa deixa no ar expectativas até ao amanhecer. A vida gira como uma roda mágica de onde saem sempre coisas novas e inesperadas..."

"Pois a primeira paixão adolescente não é amor por uma pessoa, mas ódio a todas as outras. Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não são coisas que acompanhem a primeira paixão, são, e isso não acontece por acaso, a sua única causa. E ela própria é uma fuga na qual o estar a dois mais não é do que uma solidão duplicada."

"Era a insuficiência das palavras que então o torturava, uma consciência vaga de que as palavras eram meros pretextos para aquilo que se sente." "Pouco a pouco o sonho foi abandonando Törless lentamente como uma colcha de seda que escorrega interminavelmente sobre a pele de um corpo nu."

Frases retiradas de "As perturbações do pupilo Törless" de Robert Musil

Este romance de Musil, o seu primeiro, acaba por ser um estranho texto ficcional, bastante duro - sem nunca ser profusamente descritivo - que retrata as incertezas e inseguranças de um qualquer pupilo de um colégio interno. O romance, ainda que seguindo uma linha cronológica, não tem uma história enraizada do princípio ao fim. Ainda assim, e incutindo algum terror temerário no leitor, acaba por prender a atenção. A escrita é rica, com vocabulário a aprender, e uma fluidez narrativa que, tendo em conta que foi um livro de estreia, impõem respeito. De resto, tem a marca de Musil, onde vale a pena depararmo-nos com as descrições psicológicas das personagens, e o detalhe - quase obsessivo - com o qual todo o romance se parece dedicar a esse mundo interior. Um pouco duro de ler, mas compensador.

Fábulas e alegorias políticas

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Recomendo vivamente a leitura do famoso Animal Farm de George Orwell bem como da fábula de Pepetela, A Montanha de Água Lilás. No primeiro, temos a URSS escarrapachada de modo sublime, desde a luta de egos entre Estaline e Trotsky, até à invasão Nazi passando alegoricamente por inúmeros aspectos da história, escamoteados de forma desarmante.


No segundo livro, trata-se de uma fábula curta que visa enaltecer a importância moral da resistência e da integridade, quer individuais quer colectivas. Ambas usam sociedades animais para retratar esta, tão mais animalesca - a humana- com inteligência e uma certa elegância expressiva.

P.S. Fruto da gentileza de um grande amigo, tenho aí uma edição antiga do Admirável Mundo Novo. Assim que o "despache", também aqui comunicarei. Entretanto, segue a luta com (nunca contra) as 1070 páginas em letra miúda de Guerra e Paz.

Uma história

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Eles amam-se, casam-se para se amarem melhor, mais comodamente, ele parte para a guerra, morre na guerra, ela chora, de emoção, porque o amou, porque o perdeu, e zás, volta a casar-se, para amar mais uma vez, ainda mais comodamente, eles amam-se, uma pessoa ama as vezes que forem precisas, precisas para ser feliz, ele regressa, o outro regressa, afinal não morreu na guerra, ela vai à estação, ele morre no comboio, de emoção, por pensar que vai reencontrá-la, ela chora, chora mais uma vez, mais uma vez de emoção, porque o perdeu mais uma vez, e zás, volta para casa, ele morreu, o outro morreu, a sogra está a desprendê-lo, ele enforcou-se, de emoção, por pensar que pode perdê-la, ela chora, chora ainda mais, de emoção, porque o amou, porque o perdeu, ora aí têm o que é uma história...

Samuel Beckett

O Inominável

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"(...) é que só neste momento terei o direito de ficar sossegado no meu canto, a babar-me e a viver..."

"Põem-se as coisas em movimento sem haver qualquer preocupação com a forma de as fazer parar."

"Claro que me é indiferente que Prometeu tenha sido libertado vinte e nove mil cento e setenta anos antes de ter expiado a sua pena. Porque entre mim e esse miserável que troçou dos deuses, inventou o fogo, corrompeu a argila, domesticou o cavalo, em suma, fez um favor à humanidade, espero que não haja nada em comum."


"É mais fácil construir um templo do que fazer descer até ele o objecto do culto."

"Não precisa de raciocinar, só tem de sofrer, sempre da mesma forma, nunca menos, nunca mais, sem qualquer esperança de uma pausa, sem qualquer esperança de morte, é muito simples. Não é preciso raciocinar para não ter esperança."

Excertos do livro,
O Inominável de Samuel Beckett

E quanto à habitual opinião, eu não diria melhor.

Mau Agoiro

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"Afinal a campa é a expressão derradeira do ser humano."

"Aquilo a que chamamos "Terra Natal" é muito mais susceptível de ser vivido do que os simples conceitos de Pátria ou Nação(...)"

"Portanto, desatei a correr, fugi, safei-me pelo portal do lado Sul, corri como havia muito tempo não corria, corri e, por fim, fiquei feliz por saber para onde..."

"Após algumas oscilações que, por algum tempo o levaram a aproximar-se de uma dissidência pró-comunista, assumiu uma posição liberal de esquerda, que foi sofrendo algum desgaste ao longo de duas décadas, mas que se manteve reconhecível. As suas próprias contradições levaram-no, como a muitos outros, a um denominador comum, e que diz: A vida continua."

"Nó pintámos muito fachadas, que antes não tinham cor. Arte não é um pouquito de falsificação sempre? Mas compreendo que a arte alemã tem de ser cem porcento."

"(...) o cheiro a mofo da mania nacional de ter sempre razão acumulada desde há séculos, não o satisfaziam."

"E o facto de ele ter sido porta-estandarte aos catorze anos, e ela aos dezassete membro da Organização das Juventudes Comunistas, viam em ambos como a deformação congénita da geração a que pertenciam..."

"És capaz de ter razão, Alexandra, nós, os alemães, não temos veia para a alegria."

"A prova concludente da força militar deixa simultaneamente perceber a impotência do pensamento ocidental."

"(...) usando aquela caligrafia de Sutterlin que também nos impingiram na escola, ao Reschke e a mim, e de que nos ficou o hábito, até que depois do fim da guerra, graças à reeducação democrática, o perdemos juntamente com outros maus costumes."

"Não! Isto já não é a nossa ideia. Aqui recupera-se pela força económica o que se perdeu pela guerra. Claro, tudo isto decorre pacificamente. Nada de tanques, nada de stukas em acção. Não há nenhum ditador, quem domina é só a economia livre de mercado."

"(...) fomos atirados para a luta final a ocidente do Oder. E por acaso - Reschke, estás a ouvir! - pura e simplesmente por acaso, não graças à Providência, safámo-nos (...) mas o irmão de Alexandra, enquanto resistente, fora morto a tiro, com dezassete anos tal como nós, e os irmãos do Reschke estavam mortos desde o Verão de 43 (...) eles encontraram o seu fim, nós não."

Excertos retirados do livro "Mau Agoiro" de Günter Grass


Este Nobel alemão que, anteriormente, não me tinha convencido deveras, apareceu-me na livraria Wook do Dolce Vita de Lisboa (boa livraria), com este livro, edição antiga de 2000 ainda em escudos, exemplar único, e qual refugo: muito barato. Assim Günter Grass me fascinou economicamente para mais uma aventura pela Alemanha do pós guerra. Em relação ao livro, é mais um que descreve com uma comicidade subtil, essa Alemanha dividida, quer geograficamente quer ideologicamente. Uma Alemanha tensa, voraz para com a Polónia, e, também é justo dizê-lo, envergonhada. Politicamente, o livro debruça-se sobre a Alemanha do fim do muro, a proximidade da queda da URSS, a Polónia e os seus sentimentos profundamente nacionalistas e católicos - ou devo antes dizer complexos defensivos? - a primeira Guerra do Golfo, a entrada, de patrocínio alemão, da Ásia na Europa e a Ecologia. Muitos temas? Sim. Todos eles envoltos numa história linear, a da formação de uma Sociedade Germano-Polaca dos cemitérios. Nesse capítulo, a história recai muito sobre aspectos económicos - o que a pode tornar aborrecida -, mas é necessário que se extraia dela o seu carácter ideológico: o da impossibilidade de uma verdadeira cooperação Germano-Polaca. Com esta leitura, confirmei que Günter Grass é um escritor de tema; alguém essencial para a compreensão da Alemanha do pós guerra, e da Europa da segunda metade do século XX. Mas se isto não lhe interessa, o melhor é ler outro escritor. O estilo é também interessante pois o narrador, que é o próprio Grass, parece sempre narrar a contragosto esta história, dando-lhe um carácter cómico. Uma comicidade triste: a de relembrar o passado sofrido e as chagas da sua geração. Um livro interessante para os interessados; um livro que pode suscitar debate entre quem o lê.

A Peste

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"Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos."

"Mas o que são cem milhões de mortos? Quando se faz a guerra, mal se sabe já o que é um morto. E, visto que um homem morto só pesa se o vimos morto, cem milhões de cadáveres semeados através da História não passam de um fumo na imaginação."

"(...) sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento em primeiro lugar, e, em seguida, aquele que imaginávamos aos ausentes - filhos, esposas ou amantes."

(...) reintegráva-mos , em suma, na nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos ao nosso passado, e ainda que alguns de nós tivessem a tentação de viver no futuro, rapidamente renunciavam, tanto pelo menos quanto lhes era possível ao experimentarem as feridas que a imaginação finalmente inflige àqueles que nela confiam."

"(...) era então atirado sem transição para o mais espesso silêncio da terra. Não tivera tempo para o que quer que fosse."

"Com a ajuda da fadiga, ele deixara correr as coisas, tinha-se calado cada vez mais e não mantivera a sua jovem mulher na ideia de que era amada. Um homem que trabalha, a pobreza, o futuro lentamente fechado, o silêncio dos serões à volta da mesa - não há lugar para a paixão num tal universo."

"Mas esta porcaria desta doença! Até os que não a têm trazem-na no coração."

"Mas chega sempre uma hora na História em que aquele que ouse dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte."

"Agora sei que o Homem é capaz de grandes acções. Mas, se não for capaz de um grande sentimento, não me interessa. (...) é incapaz de sofrer ou de ser feliz durante muito tempo. Portanto, não é capaz de algo que valha a pena."

"A peste, é preciso dizê-lo, tirara a todos o poder do amor e até o da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e, para nós, já não havia senão instantes."

"Já não havia lugar no coração de todos senão para uma esperança muito velha e muito triste, a mesma que impede os homens de se deixarem ir para a morte e que não é mais que a simples obstinação de viver."

Excertos retirado da obra "A Peste" de Albert Camus

Talvez a obra cimeira de Camus, A Peste é um tratado alegórico à humanidade. Num mundo sem esperança e isolado, que é Orão, a cidade setiada pela peste; desenvolve-se a história de personagens tocantes que, procurando buscar algo mais que a sobrevivência, se tornam fascinantes dentro do enredo. A obra, de carácter vincadamente Existencialista e Absurdista, debruça-se sobre o existencialismo na sua forma colectiva, em contraponto com o Estrangeiro. A proximidade da morte, mais, a discricionariedade da mesma, são o ambiente perfeito para a narrativa filosoficamente empenhada no sentido da vida. Com vários episódios tocantes, descreve-se como a brutalidade de uma sociedade flagelada e desesperançada rouba o sentido terno da vida. Deste modo, o livro acaba por ser, como a contracapa o diz, uma "trágica alegoria de um tempo consagrado à inumanidade. O Nosso.". A narrativa pareceu-me algo previsível, o que em nada definha a obra, até porque o fim é realmente comovente. Descreveria este romance como uma obra devota ao Bem, à Verdade e ao Homem. Obrigatória.

Um conselho poético

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Quando li isto, senti-o deveras. Houve uma altura em que escrevi uns poemas.

Quando se tem uma ideia é ainda cedo para escrever poesia. É preciso esperar que ela fuja de nós, nos engane ou, melhor, nos deslumbre. Então é o momento de persegui-la, de tentar o poema.

Ángel Crespo

O Eleito

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"... a velhice tem de envergonhar-se perante a mocidade porque é repelente. Entretanto, a dignidade vale tanto como a beleza."

"Para fazer penitência pelo seu crime e ignomínia, encontrará aqui maiores felicidades se a sua bondade tiver ao seu dispor os seus haveres. Sem fortuna só lhe restaria a bondade, e de que serve a bondade sem dinheiro?"


"Vós, mulheres, tendes cérebro de pássaro; só entendeis tudo o que diz respeito a problemas de carne e crianças lindas, mas escapa-vos o significado da honra e da política."

"Deus não quer que o Homem viva em grande calma; envia-lhe a inquietação para sua penitência e incita-o a criar ele próprio o desassossego que o devora."

"Todavia, parece-me admissível certa diferença entre aquilo que um homem culto deve ceditar e a fé do vulgo."


"Espero continuar a ter em vós um fiel servidor. Todavia, não vos tenho amor. Embora me tenhais eleito para vossa soberana, não achais graça diante de mim (...) Decerto obedecestes aos ditames da honra e da política."


"(...) pões-te a falar com essa boca fidalga à nossa maneira e é insuportável, porque para falar como o povo é preciso ter goelas do povo..."

"(...) porque cada um de nós traz em si o desejo de voltar atrás e reviver o passado, para transformar a desgraça em ventura, pela magia da saudade."


"O dia despontava cedo ou tarde, cobria-se o céu de tons róseos, inflamava-se, desmaiava na púrpura moribunda, espraiando-se em reflexos para os lados do Oriente."

"É raro enganar-se em absoluto aquele que no bem descobre uma ponta de maldade."


Excertos da obra "O Eleito" de Thomas Mann

Obra verdadeiramente notável do Nobel alemão Thomas Mann; parte de uma história que não é sua, mas sim de uma lenda épica dos tempos mediavais, onde por inacreditável sucessão de ignomínias, Gregorius consegue a redenção, e por último, o trono papal. A história do Papa São Gregório, édipo cristão, é narrada de forma sublime, num texto escorreito de alcance metafórico raro, onde o narrador, um abade, descreve quase intimamente, os preceitos pecadores em que a Igreja assenta. Apesar de isso, muito menos que controverso, o livro denota brilhantismo na forma como aborda assuntos tão delicados e queridos à Cultura Ocidental. Algumas das frases que anotei acima, são belos pontos de partida para a discussão sobre os fundamentos da Igreja Católica, que neste livro são violentamente truncadas com um destino acidental e puramente humano e - na gíria eclesiástica pecador - daquele que viria a ser papa. Para além disso, a narrativa não põem em causa o carácter benigno da Igreja, antes devasta o pedestal inumano em que esta assenta, pondo a tónica numa Igreja como associação política de humanos. Estabelece-se assim, por esta maravilhosa metáfora que é toda a narrativa, a importância vital do pecado na ideologia cristã, bem como um corolário moral onde qualquer mal parece ter redenção, desde que seja fundado em puro arrependimento. Para quem gosta de escrutinar o tema, e também para quem não gosta, a riqueza de escrita e conteúdo tornam esta obra obrigatória.

Aproveite quem puder

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Destaco o dia 28 de Outubro deste ano e a 30 de Junho do próximo.

Bartleby

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"Não há nada que irrite mais uma pessoa enérgica do que a resistência passiva."

"Antes nunca experimentara mais do que a tristeza - não de todo desagradável."

"(...) essa mesma melancolia transformou-se em medo, aquela piedade em repulsa."

Excertos retirados do conto Bartleby de Herman Melville.

Conto perturbador e peculiar, de carácter simbólico, que assenta numa personagem sempre misteriosa, cujo comportamento heteróclito poderá representar um conjunto de sentimentos, estados ou representações filosóficas. Destes, destaco como os que me pareceram mais palpáveis: a depressão; uma espécie de solidão exausta, própria das doutrinas mais niilistas; um ensaio negativista sobre a completa liberdade do homem; ou por último uma representação metafórica da inadaptação do homem aos tempos modernos (note-se que o enredo passa-se em Wall Street). Mas mais do que tudo isto, o livro parece-me versar sobre o advogado inominado que narra a história. Através dele, observamos um contínuo debate interior entre a piedade e um certo funcionalismo social. Por um lado, existe neste advogado uma crescente afeição pelo desamparo de Bartleby; por outro, a vida social do advogado, os seus mesteres profissionais e deveres sociais, imprimem-lhe uma necessidade veemente de se livrar de Bartleby, o empecilho. De permeio, exala-se uma vaidade interior, a vaidade da caridade, e uma expiação da culpa que se faz por intermédio da acção de terceiros e da lei, isto é, tudo o que acontece de nefasto a Bartleby, é, à luz do advogado, meramente uma consequência natural da lei, accionada não por si, mas por um inquilino. Resta-me completar dizendo que o conto é-nos apresentado de forma muito breve - lê-se numa tarde - e escorreita, o que denota uma mestria particular do escritor, uma vez que escrever bem de forma simples é, se não a mais difícil, das mais difíceis formas de escrever.


Nota: A capa apresentada refere-se a uma edição espanhola. Apenas a escolhi por-me parecer a mais condizente com o livro. Em português, podemos encontrar o conto através da Assírio & Alvim. De qualquer modo, os tradutores dão nota de que existem divergências de tradução pelo que se recomenda a leitura do original.