Costinha, se me estás a ouvir, eu não sei qual é o teu projecto para o meu Sporting, mas isto voltava a colocar o público nas bancadas. E como este ano ainda só marcámos vinte tentos no campeonato, com mais estes dois te(n)tos, a malta vibrava mais. E é claro, aí todos passariam a saber porque não ficávamos em casa. Não há fome que não dê em fartura, e isto também há-de ser desporto...
Jerusalém

"Estar doente é ter dado um passo mau, um passo diabólico..."
"Nunca se encontraria com alguém num dia em que estivese com demasiadas dores. Tal seria desistir de ser humana..."
"Hanna não pintava as pálpebras de cor roxa para ser amada, mas sim para que a solidão de um homem visse ali uma interrupção exuberante."
"Aparecer porque se quer desaparecer. Aparecer porque se quer fazer aparecer outra coisa. O altruísmo material era o altruísmo moral e não havia outro."
"(...) uma sensação constante de medo, que precisamente por nunca desaparecer, por "nunca descansar" adquiria com os anos um estatuto bem diferente das circunstâncias, quase teatrais, que interferem habitualmente na excitação de um corpo. "
"Eu não posso lutar consigo, eis a frase mais ofensiva que Kaas alguma vez ouvira."
"Era evidente que os raciocínios normais de Theodor haviam sido brutalmente interrompidos pela existência. Sem a hipótese de rasuras a vida tornara-se, em pouco tempo, outra, estranha, sem a sua vontade e sem o seu consentimento."
"O progresso depende apenas da velocidade do mal e das respostas que este provoca..."
"Nunca se encontraria com alguém num dia em que estivese com demasiadas dores. Tal seria desistir de ser humana..."
"Hanna não pintava as pálpebras de cor roxa para ser amada, mas sim para que a solidão de um homem visse ali uma interrupção exuberante."
"Aparecer porque se quer desaparecer. Aparecer porque se quer fazer aparecer outra coisa. O altruísmo material era o altruísmo moral e não havia outro."
"(...) uma sensação constante de medo, que precisamente por nunca desaparecer, por "nunca descansar" adquiria com os anos um estatuto bem diferente das circunstâncias, quase teatrais, que interferem habitualmente na excitação de um corpo. "
"Eu não posso lutar consigo, eis a frase mais ofensiva que Kaas alguma vez ouvira."
"Era evidente que os raciocínios normais de Theodor haviam sido brutalmente interrompidos pela existência. Sem a hipótese de rasuras a vida tornara-se, em pouco tempo, outra, estranha, sem a sua vontade e sem o seu consentimento."
"O progresso depende apenas da velocidade do mal e das respostas que este provoca..."
Frases de Jerusalém, de Gonçalo Tavares
Prémio Ler/Millenium BCP (2004), Prémio Portugal Telecom de Literatura (2007) e mais importante que tudo, Prémio Literário José Saramago (2005). Assim podemos introduzir Jerusalém. É, a meu ver, das piores introduções possíveis. O livro merece ser lido, quase percebido, sem dúvida meditado. Gonçalo Tavares, aquele que Saramago diz que tem tudo para ganhar o Nobel, entra com o Jerusalém para uma galeria distinta. Uma história, de loucos e menos loucos pululando entre capítulos, dispersos, vagos, arrancando in media res, saltando para trás e para a frente num ardil cronológico de génio. O encadeamento, lógico no caos, entre prolepses e analepses, cria um intrincado temporal que fascina, e dá maior sentido à narrativa. Neste domínio, Jerusalém é primoroso, inspirador. Depois vem a história. Mylia e Theodor são, para mim, as personagens principais. Parece-me justo dizê-lo. Mas estou certo que há quem não ache assim.Uma grande espaço é uma cidade incógnita, com muitas igrejas, bairros de prostituição e um manicómio de prestígio. Nada nos garante que estamos em Jerusalém. A loucura e a crueldade humana são a base de uma história de carácter quase ensaístico. Para além disso, Theodor desenvolve ao longo do livro, um estudo sobre a crueldade humana. A perspectiva de prever as épocas de maior ou menor terror da Humanidade é o que procura o seu modelo. Para Theodor, a subida do mal ou a sua extinção eram coisas boas, porque de uma maneira ou outra, ele acabaria por morrer. O problema seria se o mal fosse uma força constante, sempre presente, numa porção ameaçadora, nunca capaz de acabar consigo própria. Uma ideia muito interessante. A linguagem é simples, estilisticamente simples, mas a mensagem é sobremaneira complexa. Um livro diferente, sobre a escuridão dos homens, que pela sua idiossincrasia, se trata de uma grande romance da nova literatura portuguesa.
O Pendura

"Quando nos dão um beijo é bom prevermos de imediato o instante em que vamos apanhar a bofetada."
"Ia a casa deles com a certeza de impressionar e o temor de não ser compreendido."
"Sou arrastado pela regularidade das suas vidas, e nada tento para voltar atrás."
"Só para nos deitarmos com uma mulher, para lhe amassarmos o corpo como um padeiro, com Hãs!, Hãs! guturais e surdos, vencemos o nosso desprezo."
"Sinto bem perto a minha habitual inimiga a espreitar-me: a tristeza sem causa."
"(...)porque chamamos "minha mulher" a essas queridas de um só noite, e assim brincamos às famílias e ficamos com ar de quem se vê obrigado a suportar encargos."
"Só sei dizer frases sentenciosas sobre a vida, as suas canseiras infinitas, os seus baços desesperos, e sobre o desacordo que há entre os factos e os nossos sonhos."
"Não vejo Madame Vernet; vejo a situação que arranjámos, a vida que se prepara e os seus acontecimentos possíveis, o adultério que vai ser preciso consumar."
"Que apetite de carne é este, surgido de repente e que passa antes de ser satisfeito?"
"O primeiro amor de uma rapariga decorre em exercício, e o último amor de uma mulher madura em palavras."
"Ia a casa deles com a certeza de impressionar e o temor de não ser compreendido."
"Sou arrastado pela regularidade das suas vidas, e nada tento para voltar atrás."
"Só para nos deitarmos com uma mulher, para lhe amassarmos o corpo como um padeiro, com Hãs!, Hãs! guturais e surdos, vencemos o nosso desprezo."
"Sinto bem perto a minha habitual inimiga a espreitar-me: a tristeza sem causa."
"(...)porque chamamos "minha mulher" a essas queridas de um só noite, e assim brincamos às famílias e ficamos com ar de quem se vê obrigado a suportar encargos."
"Só sei dizer frases sentenciosas sobre a vida, as suas canseiras infinitas, os seus baços desesperos, e sobre o desacordo que há entre os factos e os nossos sonhos."
"Não vejo Madame Vernet; vejo a situação que arranjámos, a vida que se prepara e os seus acontecimentos possíveis, o adultério que vai ser preciso consumar."
"Que apetite de carne é este, surgido de repente e que passa antes de ser satisfeito?"
"O primeiro amor de uma rapariga decorre em exercício, e o último amor de uma mulher madura em palavras."
"Uma mulher que envelhece precisa de recordações."
Frases do livro O Pendura de Jules Renard
Um dos primeiros romances de Renard, esta obra vagueia entre Paris e a costa francesa onde os endinheirados passavam longos períodos de férias. Trata-se de uma história onde a personagem principal, geralmente na primeira pessoa, relata a proximidade parasitária a que se devota a uma família locupletada pelas actividades do marido. Os burgueses endinheirados acabam por adoptar este poeta de versos avulsos, e ele, numa necessidade que nos aparece ao longo de todo o livro, acaba por estudar a forma de se pendurar no regaço da família, subir na consideração dos familiares, e até tratar dos dinheiros da casa. Paralelamente a isso, um concupiscente interesse cresce em primeiro lugar pela mulher, Madame Vernet,e em segundo lugar pela sobrinha. O livro é pontuado por situações que as notas de rodapé explicam como actuais à época. Também em certos momentos, sentimos que o pendura pode ser o próprio Renard, ainda que num ambiente fantasiado. A escrita pareceu-me muito francesa. Com uma temática próxima do escandaloso Madame Bovary, pouco antecedente a este, e com uma descrição psicológica muito mais assente na fragilidade e boçalidade das personagens do que por exemplo, as abruptas descrições eslavas. Também no cuidado descritivo da natureza vemos bem presente a literatura de Renard. A divisão, em capítulos curtos e intitulados, quase lembrando as indicações cénicas do teatro (género que o próprio cultivou), completa um conjunto de características que faz deste romance de moralidade errante, pouco escrupulosa, e com lampejos de uma tristeza cava, um livro que quase serve de compêndio aos traços mais característicos da escrita de Renard. Muito bom para os amantes da literatura francófona.
Deixem-me também destacar, porque não é a primeira vez que leio um livro excelente da Assírio & Alvim, a qualidade da edição. Excelente capa, (é a que podem ver na figura), bom papel, e sempre algumas informações adicionais dobre a obra. Para além de publicar autores actuais que vencem prémios e vendem na medida certa, também nas colecções clássicas destacam-se como de topo.
Deixem-me também destacar, porque não é a primeira vez que leio um livro excelente da Assírio & Alvim, a qualidade da edição. Excelente capa, (é a que podem ver na figura), bom papel, e sempre algumas informações adicionais dobre a obra. Para além de publicar autores actuais que vencem prémios e vendem na medida certa, também nas colecções clássicas destacam-se como de topo.
Um diálogo de Coetzee
Já há uns tempos, num programa do Esplanada Cidadania desta segunda temporada, falara de Coetzee como um dos melhores da actualidade. O Prémio Nobel e dois Booker Prize's (já podiam ter sido 3) faz dele o papa títulos da literatura. Eu não gosto de ver as coisas assim, mas isto, que a mim me tocou de uma forma particular, talvez ajude a explicar as profusas premiações.
O Regresso
"Mas ele tinha pouca vontade de ouvir a sua própria voz - de ouvir qualquer som que fosse -, devido a uma crença vaga, que se moldava lentamente a si própria dentro dele, de que a solidão e o silêncio eram as melhores felicidades da humanidade."
"E nada se adapta mais à mentira do que a morte."
"(...) não era capaz de distinguir com clareza aquilo que era daquilo que devia ser; a verdade imperdoável das válidas aparências. E soube instintivamente que a verdade não lhe serviria."
"Foi surpreendido pela quantidade de pormenores que se intrometeram na sua mem´roia, involuntariamente. Não conseguia deixar de recordar os seus passos, o ruge-ruge do seu vestido, a forma como sustinha a cabeça, a maneira decisiva como dizia "Alvan", o tremor das suas narinas quando se aborrecia. Tudo aquilo que lhe tinha pertencido, tanto, que de forma tão íntima e especial tinha sido seu."
"Teve um vislumbre da força irresistível" das suas convicções... das convicções dela. Parecia que jamais poderia cometer um erro. Era moralmente impossível errar. Não se exaltou com esta certeza; estava ligeiramente preocupado relativamente ao seu custo..."
"E então pensou nela como costumamos pensar nos mortos numa vastidão meiga de remorso, num desejo intenso pelo regresso da perfeição idealizada."
"E nada se adapta mais à mentira do que a morte."
"(...) não era capaz de distinguir com clareza aquilo que era daquilo que devia ser; a verdade imperdoável das válidas aparências. E soube instintivamente que a verdade não lhe serviria."
"Foi surpreendido pela quantidade de pormenores que se intrometeram na sua mem´roia, involuntariamente. Não conseguia deixar de recordar os seus passos, o ruge-ruge do seu vestido, a forma como sustinha a cabeça, a maneira decisiva como dizia "Alvan", o tremor das suas narinas quando se aborrecia. Tudo aquilo que lhe tinha pertencido, tanto, que de forma tão íntima e especial tinha sido seu."
"Teve um vislumbre da força irresistível" das suas convicções... das convicções dela. Parecia que jamais poderia cometer um erro. Era moralmente impossível errar. Não se exaltou com esta certeza; estava ligeiramente preocupado relativamente ao seu custo..."
"E então pensou nela como costumamos pensar nos mortos numa vastidão meiga de remorso, num desejo intenso pelo regresso da perfeição idealizada."
Frases da obra O Regresso de Joseph Conrad
Este pequeno romance de traços novelescos traz até nós um acontecimento importante na vida de Alvan Hervey. Chegado a casa, descobre que a sua mulher o deixou, mas poucas horas depois, ela volta, incapaz de consumar a traição e macerada pelo seu sentimento de culpa. Todo o diálogo, por vezes monólogo de Alvan, centram-se na temática da moral. Um pensamento rápido mas profundo sobre as capacidades castrantes da moral sobre os sentimentos do Homem, e do peso da sociedade, das responsabilidades sociais, e do papel social que cada um de nós se vê impelido a participar. A chave é a impossibilidade de perdoar, ainda que isso cause um sofrimento maior do que qualquer outro, pura e simplesmente por altivez moral. Sempre em torno disto, através de uma lição de moral pedante com que increpa a sua mulher, a novela desenrola-se e acaba por deixar outros nobres pensamentos como o da diferença entre a felicidade existente e a sonhada, ou a sensação de felicidade mais acentuada aquando da perda. Um bom livro, curto em páginas, mas extenso em pensamento; que serve de montra para a grande obra do romancista Joseph Conrad.
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