Mas este texto não é para reafirmar uma posição. É sim para mostrar perplexidade pelas afirmações despudoradas que circulam, e que agravariam caso não fosse de si grave, a situação supra referida.
Nunca se é tão feliz nem tão infeliz como se imagina
"... jurou cortar o nariz e as orelhas a Caifás e a Pilatos, se um dia encontrasse semelhantes patifes."
"Catarina passara o braço direito sob o pescoço de Ricciardo e, com a mão esquerda, segurava solidamente aquele objecto a que vós, Senhoras, tendes grande vergonha de vos referir na presença dos homens."Hoje Pedro Passos Coelho escreveu um artigo no Jornal de Negócios. De título “Não ao Bloco Central”, Pedro Passos Coelho escreve o seu artigo. Seu na verdadeira acepção da palavra. Seu porque lhe assenta bem. Seu porque lhe é conveniente. Merece atenção.
Muitos dizem que Pedro Passos Coelho é demagogo. Um “estiloso moderno” que mais se apronta com a figura de “Sócrates do PSD”. Pois bem, tal como a palavra “estiloso”, também este imagem Socrática neo-liberal é algo que julgo não existir. Até porque, em última análise, o próprio Sócrates corporiza-a. Ainda assim Pedro Passos Coelho é moderno, isso é. Preconiza a juventude com ideias, e isso será a última coisa de que o possamos acusar. Não perde uma oportunidade para mostrar a sua matriz neo-liberal, veja-se o penúltimo parágrafo da sua opinião. Muito antes disso, Pedro Passos Coelho procura o essencial: usar da sua imagem de “Gestor e militante do PSD” como ele próprio assina o artigo, vulgo “independente mas pouco”. Parte dessa imagem para, por A mais B, designar o bloco central como uma tentativa de esvaziamento quer da alternância democrática, quer da alternância ideológica moderada do espectro político português. Manifesta-se um ostensivo reformista e um recôndito assustado pelo crescimento dos partidos radicais. O artigo é bom e é isto.
Por deslindar fica uma intenção indelével. Demarcar-se e definir as linhas pelas quais Manuela Ferreira Leite se terá de coser. Limitar as opções da actual líder é uma condicionante que neste caso é quase mortal. Isto porque pegando nas sondagens, algo que Pedro Passos Coelho também faz neste artigo, o próximo governo não estará no poder durante toda a legislatura, excepto se tiver maioria, o que a inviabilização do bloco central em muito limita. Mais limita se observarmos que BE e PCP não farão coligação com o PS e a escapatória será uma desconstrução ideológica total preconizada por um PS/CDS. Caindo o governo a meio da legislatura, em provável recuperação económica, Pedro Passos Coelho avança primeiramente sobre um bando de chacais sedentos de poder (PSD), cavalgando à posteriori sobre um PS esmagado na imagem de governo quedo e murcho. Assim lançará a sua estada de 8 anos de poder, numa segunda legislatura provavelmente em maioria absoluta.
Pessoalmente entendo que o artigo está correcto no essencial. Combater os radicalismos passa por acentuar diferenças entre o centro-esquerda e o centro-direita, algo que um bloco central apagaria. Para além disso, assumo o mesmo incómodo de Pedro Passos Coelho: nem ele quer o PSD coligado ao PS, nem eu queria o PS coligado com o PSD. Mas este é um dos raros casos em que a circunstância ajuda a determinar a norma. Quanto vale a estabilidade em tempo de crise? Muito, com certeza. Tanto que o fim justifica estes meios. Mais do que a crítica ideológica (noutras publicações lá chegarei), a grande crítica a fazer a Pedro Passos Coelho é que, não defendendo uma alteração do sistema democrático, como não só eu mas também outros defendem, acaba por desvalorizar a estabilidade governativa. Nos tempos que correm, essa vale ouro.
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