A Constituição dele - Educação

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Tenho por hábito dizer que se há coisa onde não somo iguais é na capacidade intelectual. Esta é, obviamente, influenciada pelo esforço, dedicação e habilidade nos estudos, bem como num conjunto de outras valências comummente designadas – e abarcadas simplisticamente – de inteligência. Curiosamente, foi principalmente aí que a matriz política de que perfilho deu as maiores provas de progresso, e em certa medida, é o alto nível de educação e competência que vai sustentando a manutenção da Social-Democracia Nórdica. O centro esquerda Social-Democrata resolveu o problema atribuindo educação para todos, num princípio de não discriminação e grande qualidade do ensino público, quer na provisão quer na investigação. Em Portugal, ainda que erroneamente orientado, não custa lembrar o bom principio que guiou um governo PS à “paixão pela Educação”. Por ora, a proposta do PSD prevê que o Estado deixe de se obrigar a «criar um sistema público» e a «estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino». É precisamente o inverso do verificado nos estados Sociais-Democratas do Norte da Europa, onde em termos de Educação, as conclusões são inequívocas: aquele é o melhor e o mais justo dos caminhos, até porque, nas sociedades actuais, a educação é a arma da tão proclama ascensão social com a qual a direita enche a boca. Se querem realmente a meritocracia e a ascensão social, provenham educação sem descriminação ao povo. Sem educação gratuita, só se pode esperar o classicismo e o imobilismo, tanto das classes, como do progresso.

A Constituição dele - Sáude

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Ao apagar expressamente da Constituição a expressão «tendencialmente gratuito», bem como as alíneas que atribuem ao Estado o dever de assegurar o acesso gratuito aos cuidados de saúde, a proposta do PSD revela toda a sua garra (ou peçonha se preferirem). O projecto não é novo, já ouvira no Congresso que aplaudiu Meneses de pé – o poder é afrodisíaco – qualquer coisa aparentada com União Nacional, em que felizmente este cantinho era dotado da gentil caridade de misericórdias e gente rica que de tão lusa, é gente boa o suficiente para prover a saúde dos míseros e inválidos, mas claro, em plena paz social. Como este delírio, porque não concebo que possa ser sonho, cria um mal-estar por demais conhecido no eleitorado, a proposta apressa-se a esclarecer que o direito à protecção da saúde continua a ser assegurado através de «um serviço universal», mas onde é sublinhado que, em caso algum, o acesso pode ser recusado por insuficiência de meios económicos. Ora é aqui que a proposta ganha real densidade política bem como exequibilidade. Se existe um Serviço Universal mas não tendencialmente gratuito, não é necessário um Serviço Nacional de Saúde, pelo menos com a especificidade técnica e capilaridade geográfica que conhecemos hoje. Esta proposta consiste na coarctação do SNS, com a Saúde a ser paga num sistema pay as you go, onde apenas os desprovidos são amparados pelo Estado. A proposta não chocaria se não tivesse por detrás o espírito do negócio, aliás o mesmo que encontramos nos sistemas privados de Saúde Norte-Americanos. É que amputado de valimento constitucional, o SNS pode ser substituído por acordos com privados, onde o Estado paga os cuidados de Saúde que pode ou quer aos hospitais com quem passaria a ter acordo. Os prejuízos são variados e bárbaros porque ainda que seja fundamental aos doentes terem a noção do custo da Saúde – para que não haja excesso de consumo – as motivações financeiras de um hospital privado ou pessoal médico, orientado expressamente para o lucro, americanizaria o sistema, cheio de casos onde o doente é tratado “à peça”, ou por e simplesmente, é descriminado na qualidade dos serviços de saúde pela sua capacidade económica. Ao invés de se utilizarem taxas moderadoras, cria-se um mercado único de Saúde sem Estado como paralelo; ao invés de se premiar a boa terapêutica, premeia-se a prática economicamente eficiente; ao invés de se promover o médico diligente, premeia-se aquele que defende estritamente a sua imagem profissional que passa a ser o único garante do seu sustento; ao invés de termos o valor da saúde para todos em condições de igualdade; temos a saúde condicionada a cada um.

A Constituição dele

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Como há sempre um dia, mais tarde ou mais cedo, em que as pessoas – e também os políticos – se revelam, Pedro Passos Coelho e a sua prole mostraram de um só jorro, a matéria ideológica de que são feitos. Porque nunca andando escondidos, o que esta tentativa de Revisão Constitucional, que todos sabem ser impossível de aprovação faz é simplesmente uma coisa: apresentar o PSD de Passos Coelho ao eleitor. Desde o primeiro Congresso do PSD onde Passos Coelho emergiu do figurino, projectando-se desde logo, como claro seguidor de uma coisa ultraliberalista e de concertação social duvidosa, ficaram poucas dúvidas sobre o PSD que os PSD’s queriam para a menage da casa. Primeiro experimentaram alguém que fosse do PSD de sempre, da orientação costumeira, leia-se Cavaquista, e que tantos seguidores – ou devo dizer saudosistas? – elegeram: Manuela Ferreira Leite. Depois, e esgotados os pruridos, abriam-se áleas laranjas e deram-se alvíssaras aos chacais. Dentro deles, escolheram o mais hábil, porque numa coisa Passos Coelho é como poucos dos que eu já vi na política: sabe e exprime sem pudor, exactamente o que quer. E vende tão bem a sua imagem, mais do que qualquer outra coisa, como Sócrates, qual pãozinho quente.

Eles não entendem...

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... que há coisas e coisas que o povo não vai entender.

Sob pena de me acusarem de populacho, nem faço comentários. Mas é tudo por demais evidente.

Porquê Filosofia: negar e desconstruir

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É nestes últimos e longos tempos que a errónea, e até estulta pergunta, alimenta não os espíritos dos homens, mas uma suposta coerência baseada na simples sobrevivência animal do Homem. Para quê a Filosofia? Filosofemos então um pouco sobre a matéria, partindo de uma fonte transparente como é a epistemologia. Filosofia, amor ao saber, tem por isto e sucintamente por isto ademais de outros motivos, a Verdade como génese. Daí, é a única matéria que é sempre verdade. Se não vejamos; o que nos interessa o saber falso? A resposta é inequívoca se a abordarmos com seriedade. Em rigor e coerência para connosco mesmos, só o saber verdadeiro nos interessa. Por silogismo, se só a verdade interessa, e estamos perante um saber falso, esse saber não interessa. Ora, é pela imediata oposição que a Filosofia me parece, desde que o meu entendimento me permite raciocinar e o meu conhecimento pensar, a única matéria sempre verdadeira. Saber a verdade. Daí a necessidade verdadeiramente humana de filosofar.

Não desprezando que nullus locus sine Genio, em Ciência, nunca saímos da linguagem e da matéria científica, mesmo que falsa, se à luz do conhecimento actual esse saber falso preenche todos os requisitos científicos de uma época. Na Matemática por exemplo, podemos fazer álgebra ou análise sobre o falso, desde que o cálculo não esteja errado, e isso depende das técnicas de cálculo contemporâneas. Na Política, podemos discorrer sobre o falso, desde que a premissa – ideologia, entendimento empírico, preconceito, etc – não sejam violados que ainda assim, estamos a fazer politica correctamente. No Direito, é por demais evidente que ainda que dotados da mais plena boa-fé e crença num qualquer sistema jurídico, a verdade não está presente se uma qualquer lei desse sistema não fraternizar com a verdade. Mais, qualquer que seja o intuito justo do Direito, ele esbarra numa acepção de Justiça que em nada garante ser a Verdade. Na Economia, os modelos estão assentes em suposições que julgamos válidas por adequação e facilidade, mas Economia como cuidar da casa, verdadeira origem do termo grego, é uma ferramenta de prosperidade cuja verificação empírica na evolução das sociedades se observa ser ziguezagueante. Nas artes, a discussão do belo e do estético não tem fim, que é como quem diz, o artista é o prosélito de uma vanguarda ou tendência que julga com fervor ser a verdade, sem mais. Na Teologia, seja ela de qualquer jaez, a sua aplicação recai sobre Igrejas, sistemas filosóficos que têm no dogma a sua fundação e desse modo, a sua anti-filosofia. Em contraponto, só se filosofa sobre a verdade pois o genius loci da Filosofia é a Verdade. Não porque este acto seja provido de qualquer deferimento divino, mas porque, ex vi termini, tudo o que é falso ao entendimento filosófico está fora do entendimento filosófico. E isto é um conceito muito estrito, pois se tivermos em conta as ferramentas da Filosofia, como a Lógica, nesta há claramente e de novo, espaço para o falso. Tal como na Matemática, não caminhamos fora da Lógica ainda que no erro, desde que não violemos os preceitos lógicos. Não havendo sofisma, o falso é lógico.

Termino esta elucubração esclarecendo que tudo isto só pode ser suportado pela consideração de que a verdade não é una. Difere de alma para alma, e por isso, Tales de Mileto, Kant ou um qualquer contemporâneo nosso, ao filosofar, chegam à verdade, à sua, individual e intransmissível, porque pensar é ser Homem e ser Homem é a Verdade do Homem; pelo menos ao que julgo. Qualquer sistema filosófico é uma explanação que chega à verdade daquele que a pensou. Todos os outros podem ficar insatisfeitos, ainda que na generalidade se reconheçam e perfilhem do entendimento provido pelo sistema criado, mas não há dúvida que o sistema responde a uma necessidade individual de saber de quem ergueu o sistema. Deste modo, mesmo que aquilo que saibamos agora seja mais vasto e até contrário àquilo que se sabia na Atenas de Péricles, a verdade é individual mas o conceito tem a eternidade passada e futura da humanidade estendida em toda a sua cronologia.

Por tudo isto, a pergunta iniciática desta reflexão consiste, a meu ver, no evitar do verdade, no deixar de procurar, e longa manus dessa postura, na negação e desconstrução do Homem.

Ah...

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...e não me venham com merdas!

La pelota no se mancha

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Agora está na moda dizer que o Maradona é um idiota (Sneidjer), ou um mercenário (Pelé), ou um péssimo seleccionador (Di Stefano). Todos dizem que foi um grande jogador e nada mais. Para mim, não é discutível que tenha sido o melhor. Foi-o. Se houve alguma coisa que este Mundial provou, entre muitas, é que Messi é genial, mas é Messi. Por um lado ainda bem, porque as lendas são mesmo assim. Mas Maradona, para mim, foi muito mais que o jogador de futebol. Foi o abismo entre o céu e o inferno, de Deus a narcótico, a vergonha, a figura disforme... Depois veio Cuba e Fidel, e conseguimos ter hoje um Maradona digno da sua mitologia passada. Este discurso é de um homem, não de um desgraçado. É o discurso do futebol, porque la pelota no se mancha , um discurso de quem vem do país que mais sente o que é o futebol - vejam os tão badalados anúncios da Quilmes - de um espírito que joga o futebol pelo futebol, para ganhar e para perder, mas sempre como o maior dos espectáculos, como um tango em quatro linhas. Uma divindade estética e de amor. Claro que é estranho eu ser um apoiante da Argentina nos mundiais e não só. Mas eu amo o futebol, e o futebol é a Argentina.



Nota: É para ver do minuto 4 para a frente.